sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Cavalaria Divina - Bruno Santana


Um adorável inseto pousava na janela da escola.
Verdinho, simplório, clássico e natural. Um belo ser parnasiano.
Pernas, cores, antenas e formas que, hoje, causam arrependimento pelos lapsos
de atenção nas aulas de biologia: quantos versos não sairiam dali!

As avós costumam chamá-lo de cavalo de Deus.
As primas sentem muito medo.
Os irmãos adoram segurá-lo pelas antenas.
Espíritos de porco os colocam em bolsas de professoras
ou intentam poesia artrópoda.

As meninas faziam escândalo ao vê-lo.
Alguém muito gentil e interesseiro sempre se candidatava a retirá-lo.
e, somente agora, penso na beleza daquelas garras.

Tão naturais nas grades habituais.
Tão criativas nos nós conceituais.
Tão coloridas nos acinzentados dominicais.

Mas,
pobre cavalo divino:
                       Bom, forte e natural.
                        Garras e olhos e cascas. Tomado de pura beleza parnasiana.

Um dia viu o verde na lousa e encontrou a epifania banal, desligou as
anteninhas e nem percebeu o sol forte atormentando o menino do fundo.
O porquinho que se levantava
movia a cortina
e acabava com todo o parnasianismo aguado.

Pobre cavalo divino,
caiu do segundo andar da escola - ainda
tomado de pura epifania de lousa - e pousou ali, na beirinha de um rio,
direto na boca de um sapão malandro.

O famoso Cururu, da beira do rio, exterminador alucinado de pobres insetos
parnasianos.

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