segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Desnatal - Bruno Santana


O mais velho fora o menino prodígio que se tornara vagabundo emblemático, o pequeno era o moleque dos diabos que dali vinte anos viraria neurocirurgião. Eram primos. O mais velho detestava a tia e mais ainda o tio. O pequenino só era bem tratado pelo primo vagabundo e pela avó – coisa de família católica.
      Estavam na sala testando o videogame que o pequenino ganhara da avó no natal. Um console de última geração, lançando imagens inacreditáveis na tela de LED da TV do pai do garoto. O barbudo vagabundo, já sabendo da índole do priminho e da pão durice do pai do garoto, levara três jogos para o garoto. Dois emprestados e um de presente, os mais violentos disponíveis. Pediu para o garoto esconder um dos jogos e não jogá-lo na frente dos pais.

“Rapaz, esse jogo é fera, mas não vai jogar na frente da tua mãe ou ela te dá uma surra e manda a Vó cortar minha mesada.”
“Caraca! É de matar capeta primo !?”
“Sim! Você mata o demônio, rouba sua alma e compra espadas com ela. É o jogo mais difícil desse videogame.”
“Eu to achando fácil.”
“É que você é meu primo rapaz. Estou te treinando pra ser fera nessas coisas.”
“Não é você que me cria. Quem me cria é o papai e a mamãe!”
“Ah é !? E quem te deu aquele skate maneiro!?”
“Você” – disse o menino fechando a cara. Depois de um tempo respondeu, deixando o jogo de lado e tomando uma espadada feroz de um demônio de fogo.
“Mas eu ralei o joelho inteiro com aquele negócio, você nem me ensinou a andar.”
“É, você tomou um tombo feio. Mas tá lembrado o que falei na época? Moleque de verdade rala os dois joelhos pelo menos uma vez por mês.”
“Verdade ... e meu ollie é mais alto que dos moleques da sétima série.”
“É, mas não fica se exibindo na frente deles. Os caras da sétima série sempre querem bater nos da quinta.”
“Se eles quiserem me bater eu te chamo.”
“E eu não faço nada, já tô te dando o papo que é pra não arrumar confusão.”
...
“Aí Oh! Fiquei falanu com você e morri. Tem que voltar do começo?”
“Sim. Por isso ele é o mais difícil. É igual aos videogames da minha época.”
“Maneiro. E você? O que você ganhou de natal?”
“Depois dos vinte, você trabalha e compra seu próprio presente. Ninguém te dá nada.”
“Saquei. Mas o que você comprou primo?”
“Nosso jogo de demônios.”

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