quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A borra do café- Rolando Vezzoni

Esse é o ultimo post do Café puro.
Após muitas considerações a equipe chegou a conclusão que boas coisas tem inicio, maturação e fim... por hora, o logo Café puro existe como ideia e história, não mais como a revista virtual.
Por sempre ter sido um site de literatura, pouco mais falarei, e o encerro com um poema(não haveria outro modo):


Bom, como diria Zé Ninguém (que Zeus o tenha)
"o meio é muito mais louco que o fim"

A xícara é entornada.
Cada gole é o que foi:
um gole.

-Prazer, meu nome é café:
Quente.
Amargo.
Puro.
Negro.
Apreciável e finito...
Como a vida, mas sem ressaca.

(desejo o que quer que seja a quem quer que seja)

Tudo que fizemos foi contar "estórias", e um post-post aqui e ali.
Um brinde! e dois adendos:

Rolando, sem metafísica, (cafalírico):
"faz parte"
Brunão, de Lins (ogro literário):
"é a morte do café, vou fumar um cigarro"

Isso é tudo pessoal.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Montaigne - Bruno Santana


Falsa. A linha tênue entre isso e aquilo é falsa. Falsa como o beijo daquela menina
falando de seus medos antigos e seus sonhos perturbadores.
Não vale como ciência - não hoje nesse mar de conclusões tão óbvias.
Demostrar é necessário, não só no romance
não só na novela
não só no poema
mas a vida inteira.
Vírgulas, pontos e pontos e vírgulas.
Escritos em verdade e com cautela. Ajustados por minutos de sobriedade.
Delineados em terrores de quarto.
Acelerados em calafrios familiares.
É necessário fazer com acurácia. Não apareça com versos modestos.
Modificar até é sensato, mas, até aí, não passa de ensaio.




Um ensaio não é nada: você não é francês.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Complexo e Confuso - Bruno Santana


Cinco maços amassados espalhados - na mesa, no chão, na cadeira, na cama, no armário ...
Porra! Até pra alguém assim é demais. Melhor amassar melhor e jogar no lixo,
começar a reforma. Reforma é bom, arrumação também. Contar os corpos,
salvar os feridos, ligar pras famílias ... não, não, nem pra tanto -
é só um quarto.

Catar os maços, dobrar roupas sujas, recolher as folhas, canetas no estojo: reforma. Mudar pra prosa?

sei lá

Não, não, assim também não.
Palhetas? Onde ficaram? São duas ... Sem dúvida, uma em cada canto.

Olha mesa, olha chão, olha lixo, olha folhas, olha tudo. Não, não olha tudo.
Todas ali, embaixo do computador - máquina maldita; agora deu pra esconder palhetas.

Bom, melhor aqui que dentro do violão.
Violão de merda, porque não é mais mole e deixa fazer pestana?

Preciso duma guitarra ... Merda! Isso nem é reforma.

Cobertor pro chão, travesseiros pra mesa, lençol esticado:

Blusa retilínea, origami de mangas, dobra aqui, dobra ali, põe no cesto
- ordem no caos é só truque de estilo. Joga no cesto.

Camiseta 1, propaganda de óleo de carro, viagem da irmã nas férias,
show de 2002, vestibular de 2008, inter de 2010, junta tudo, junta tudo,
camiseta velha é que faz cara bom.

Vá lá, folhas.

Amassa poema ruim, guarda desenho bom, amassa esboço feio, guarda ensaio prolixo,
amassa anotação, amassa recado, amassa soneto - porra, preciso dum cigarro, tem um maço ali, ao lado do caderno.

Merda, parece a porra de um Van Gogh - mas de orelha na cara.

Melhor parar.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Os mosquitos bebem de graça- Rolando Vezzoni




Penso que era carnaval (ao menos parecia), a xícara tinha gosto de barulho, acho que estava certo.
O bule cheio esfriando e a luz forte e sozinha das oito horas, que é o horário reservado para quem quer ficar sozinho tomando café quase frio ("quase" por estar um calor do cacete).
Acho que era carnaval, o cigarro tinha gosto de bagunça, tinha de estar certo.
Os confetes na grama úmida refletindo a luz de fim de verão, cuja a função é te lembrar que não descansou e dormiu como deveria nos últimos feriados e dias "inúteis" de sua vida.
Sei que era carnaval, o pão tinha gosto de noitada, estou certo disso.
As pessoas acordando confusas são muito mais interessantes, o cheiro de ontem e os mosquitos caranguejando por terem chapado do sangue alheio... Invejável.
Barulho, bagunça e noitada correm soltos na terra de Macunaíma, e não tenho tempo a perder.
Saio a caça de algo para chamar de carnaval.
Olho o boteco e o céu, já sei como termina:
Comigo rachando aguardente pra ralar e rolar com Iracema, que pra ser índia só falta tirar a calcinha...
Barulho, bagunça e noitada são folia em terra de mosquito que tem tempo pra beber.
Ando com preguiça e mãos dadas, o mundo corre e eu flerto, sou um corpo cosa-nostra de espírito tupiniquim.
Os homens bons lutam pelo canto mais macio da guia, homens bons precisam dormir.
Só escritores deixam de ser artistas nos carnavais, somos netos de Baco e Vênus, deuses fugidos do inverno europeu...Caçadores de caipirinha.
Bocejo entre o beiço e o pescoço duma ninfa tão embriagada quanto eu, embalados num calor que foge ao bom censo.
Barulho bagunça e noitada são a graça no trajeto ao lar do artista falador, e já nem sei que tempo é.
São três latas e três horas da manhã no lençol que nos recebe, onde não se tem nome nem ano.
Em extase o universo encolhe, e só há o cômodo e o que, de minha perspectiva é observado:
Mulher, mosquito e cigarro... Como se diz suor em tupi?
Sim, era carnaval, a noite tinha gosto de futuro, e tudo que queria era uma boa soneca e um café quase frio pela manhã.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Na Terra dos Homens - Bruno Santana


Derrubava dragões na garupa do cavalo branco, flanqueado por elfos magnfícos em cabelos dourados e espadas sagradas.
Engatinhava pelo vale da sombra da morte inspirado por antigos sábios, atirando
setas encantadas e expurgando a loucura de magos hipnotizados pela sombra.
Transpirava fel enquanto engolia a areia da terra sagrada - dia e noite - em delírios febris pelos beijos da donzela eterna.
Recuperava a sanidade na luminescência do sol nascente
aprendendo a pensar no nada
sentir o nada
viver o nada
esquecer a dor.


Mas o reino da serenidade caiu: o caminho suave terminou.
A espada está cravada e Arthur é a rocha.
Os velhos de juventude encantada sucumbiram:

Samurais massacrados por tambores de balas
Cavaleiros sagrados expulsos e excomungados
Os assassinos estão no trono

A fauna fantástica agora é piada.

Órfão,
é órfão.

Órfão de si
Órfão de céu
Órfão de fé
Órfão de mágica

mas a magia retorna em cordas flamejantes
em lordes exilados
em guerreiros calados
em símbolos profanos.

O cavalo continua:
  o campo é o mesmo, o sonho rasteja, puxa a grama e segue

em noites
em dias, em lentes, em sombras
resiste à luz.

A profecia toma corpo:


       o escolhido vestiu os espinhos. Monta a Morte, veste o luto
cavalga em silêncio

Negro e Sombrio.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Papiro acidentado- Rolando Vezzoni

Rabisca o papel, delicadas linhas,
se projeta olhos, olhos fortes.
Feição de menina e pele clarinha,
branca como o papel que a tem.
Desce para o pescocinho o grafite platônico,
depois volta e redesenha um sorriso irônico.
Mamas venusianas com movimento nulo,
proporções ventruvianas para o sonho repensado.
Repensado pelo homem que pinta, que deseja...
O ilusionista bidimensional de traço arrojado
ilustra a mulher objetivamente perfeita,
mas sofre pela triste realizãção:
As moças que realmente lhe apetecem
são subjetivamente imperfeitas...
E as tem em partes, e as deseja todas.
O problema da fêmea exata, é a imortalidade.
De pele e cheiro é o tesão do artista,
e para arte, tesão é o mais puro amor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Barata tomando coca-cola- Rolando Vezzoni

   Parado na parada de ônibus, fazendo nada no meio do nada, humanos mandam bem nisso.
   Nenhum puto no bolso, só um pedaço retangular de plástico (que não vale um centavo quando se está a vinte minutos da borda do planeta) e uma garrafa de coca-cola quente (ácido sulfúrico).
   Fora parar por ali por ter dormido no ônibus anterior, rumo ao lar, mas a noite mal dormida havia massacrado todas as chances, e um homem mal dormido é apenas um dezoito-avos de homem, uma miniatura caminhando pelo mundículo povoado de homúnculos com problemículos muito menores do que ficar preso num ponto de ônibus a esquerda da puta-que-o-pariu.
   Depois de algumas horas sem movimentações interessantes, começou a andar em círculos, círculos que se desenvolveram em um circuito elaboradíssimo, que se estendia até o arbusto amarelo que tinha folhas meio ovais, pessoas tem circuitos: é preciso seguir caminhos para ser uma pessoa.
   Também era sujeito de evitar movimentos desnecessários, sempre foi sujeito de evitar muitas coisas e analisar situações, e foi depois da décima quenta volta que se deu conta do maravilhoso paradoxo que era ficar preso num local em que se usa para dar um jeito de ir embora.
   Na noite caída a paz reinava, a noite na parada quem dorme é o leão...
   Noite sem um teto é covardia universal... O homem constrói tetos por saber que as vezes o crânio não é o suficiente para se guardar o corpo, e guardar o corpo é uma tarefa trabalhosa.
   Monologar reclamações na madrugada solitária foi a solução, organizou suas reclamações por ordem alfabética: Um homem não é homem sem alfabeto.
   A manhã é gloriosa, sol nascendo com preguiça, e o primata pelado e suado, sentado de camisa depois de vinte e tantas horas preso sem banho (e o banho é importante, salvo no caso dos franceses.) admirando o sol, que brilha mais forte na esquina da casa-do-caralho.
   Pra lá pra meio dia que tomou a coca-cola quente, coisa que como homem jamais faria.
Sempre sentiu medo de ficar preso, e ficou preso num lugar aberto de onde deveriam ir e voltar pessoas. 
   Preso pelo medo de perder sua liberdade, no cu-do-mundo depois do arbusto amarelo de folhas ovais, sozinho tendo a plena consciência de que não há consciência a ser compartilhada quando se está sozinho.
   Os humanos precisam de humanos... Era uma barata tomando coca-cola no ponto final.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Oi? - Bruno Santana


Quem é?
Aparecendo assim na madrugada. A hora sagrada dos loucos ... minuto precioso do lobo
abrigo dos paranoicos. Não quero.



" Sua autorização não foi recebida. Peço que se retire. "

Mas não, não tem quem faça ir.
Veio e ficou, numa sensação de barriga vazia
de vento que não refresca
em pertubação contraproducente.

Não, ainda não é surto - muito pouco pra sequela. Não sei, não é possível, É alguém.
É você?
Não, não seria .. Sempre é ninguém, mas ninguém deixou de ser. É alguém.
É ...
deve ser provisório. Sim! Um calço! Não, não, descalço.

.Espera.

Ah, Sim. Agora:
É ... Não sei. Não, não é ..

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Cavalaria Divina - Bruno Santana


Um adorável inseto pousava na janela da escola.
Verdinho, simplório, clássico e natural. Um belo ser parnasiano.
Pernas, cores, antenas e formas que, hoje, causam arrependimento pelos lapsos
de atenção nas aulas de biologia: quantos versos não sairiam dali!

As avós costumam chamá-lo de cavalo de Deus.
As primas sentem muito medo.
Os irmãos adoram segurá-lo pelas antenas.
Espíritos de porco os colocam em bolsas de professoras
ou intentam poesia artrópoda.

As meninas faziam escândalo ao vê-lo.
Alguém muito gentil e interesseiro sempre se candidatava a retirá-lo.
e, somente agora, penso na beleza daquelas garras.

Tão naturais nas grades habituais.
Tão criativas nos nós conceituais.
Tão coloridas nos acinzentados dominicais.

Mas,
pobre cavalo divino:
                       Bom, forte e natural.
                        Garras e olhos e cascas. Tomado de pura beleza parnasiana.

Um dia viu o verde na lousa e encontrou a epifania banal, desligou as
anteninhas e nem percebeu o sol forte atormentando o menino do fundo.
O porquinho que se levantava
movia a cortina
e acabava com todo o parnasianismo aguado.

Pobre cavalo divino,
caiu do segundo andar da escola - ainda
tomado de pura epifania de lousa - e pousou ali, na beirinha de um rio,
direto na boca de um sapão malandro.

O famoso Cururu, da beira do rio, exterminador alucinado de pobres insetos
parnasianos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

todo o dia. - Caroline Bellangero


as coisas querem ser vistas em azul, disseram.

as coisas cinzas, principalmente, e as vermelhas também, elas querem ser azuis.

abro a janela hoje e vejo o verde, sinto o cheiro de verde.

abri a janela ontem e vi ferrugem, senti o cheiro de ferrugem.

o verde, a ferrugem, todas as cores querem ser vistas em azul.

o céu leva o dia inteiro para ser negro e a noite inteira para ser azul.

o céu quer ser visto de azul todo o tempo, disseram.

abri a janela e vi o céu manchado de cinza e branco, com cheiro de chuva.

abri a janela e vi o céu manchado de cinza e branco, com cheiro de gente.

toda gente quer ser vista em azul, disseram.

abri a janela e vi um revolver apontando à boca deles, sentiram gosto de pólvora, sentiram gosto de azul.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Os motivos - Bruno Santana


A face do gênio refletindo o perigo das palavras fortes. Seus olhos preocupados compõem teses sobre a insensatez de frases jogadas. Os extremos não são atingidos sem riscos. A profundidade não é alcançada sem cuidado.

Cuidar de frases, cuidar de palavras, repetir versos, reler estrofes, revisitar ideias: este é o campo do louco. No entanto, loucura só é loucura no mundo da sanidade - enquanto perdido no caos cotidiano de um século tecnológico o louco é apenas transeunte. Nenhuma análise é suficiente.

Aforismos extensivos compõem obras deslocadas. Obra de anjo poético metido a filósofo. Não se faz filosofia cantando. O canto não se presta à análise. Definir não é tarefa de homens; definição é artimanha natural: o céu é definido, o sol tem leste e oeste, a gravidade puxa e derruba, o mar está lá.

“ Deus sempre perdoa, o homem algumas vezes perdoa, a natureza nunca perdoa ”

A frase ecoa por paredes marrons, captada e amplificada por livros, chinelos, cuecas, calças e folhas do chão. 


O natural é fatal.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Desnatal - Bruno Santana


O mais velho fora o menino prodígio que se tornara vagabundo emblemático, o pequeno era o moleque dos diabos que dali vinte anos viraria neurocirurgião. Eram primos. O mais velho detestava a tia e mais ainda o tio. O pequenino só era bem tratado pelo primo vagabundo e pela avó – coisa de família católica.
      Estavam na sala testando o videogame que o pequenino ganhara da avó no natal. Um console de última geração, lançando imagens inacreditáveis na tela de LED da TV do pai do garoto. O barbudo vagabundo, já sabendo da índole do priminho e da pão durice do pai do garoto, levara três jogos para o garoto. Dois emprestados e um de presente, os mais violentos disponíveis. Pediu para o garoto esconder um dos jogos e não jogá-lo na frente dos pais.

“Rapaz, esse jogo é fera, mas não vai jogar na frente da tua mãe ou ela te dá uma surra e manda a Vó cortar minha mesada.”
“Caraca! É de matar capeta primo !?”
“Sim! Você mata o demônio, rouba sua alma e compra espadas com ela. É o jogo mais difícil desse videogame.”
“Eu to achando fácil.”
“É que você é meu primo rapaz. Estou te treinando pra ser fera nessas coisas.”
“Não é você que me cria. Quem me cria é o papai e a mamãe!”
“Ah é !? E quem te deu aquele skate maneiro!?”
“Você” – disse o menino fechando a cara. Depois de um tempo respondeu, deixando o jogo de lado e tomando uma espadada feroz de um demônio de fogo.
“Mas eu ralei o joelho inteiro com aquele negócio, você nem me ensinou a andar.”
“É, você tomou um tombo feio. Mas tá lembrado o que falei na época? Moleque de verdade rala os dois joelhos pelo menos uma vez por mês.”
“Verdade ... e meu ollie é mais alto que dos moleques da sétima série.”
“É, mas não fica se exibindo na frente deles. Os caras da sétima série sempre querem bater nos da quinta.”
“Se eles quiserem me bater eu te chamo.”
“E eu não faço nada, já tô te dando o papo que é pra não arrumar confusão.”
...
“Aí Oh! Fiquei falanu com você e morri. Tem que voltar do começo?”
“Sim. Por isso ele é o mais difícil. É igual aos videogames da minha época.”
“Maneiro. E você? O que você ganhou de natal?”
“Depois dos vinte, você trabalha e compra seu próprio presente. Ninguém te dá nada.”
“Saquei. Mas o que você comprou primo?”
“Nosso jogo de demônios.”

fim do ano - tríade textos. - Anaïs Alpes e Caroline Bellangero.

- ansiedade.
- você? agora?
- não sei se sou eu.
- não é você? sou eu então?
- talvez não só você...

pausa.

- você não acha isso tudo estranho? não se sente mal?
- não acho que eu me sinta mal, mas tenho certeza de que também não me sinto bem.
- não sente nada?
- sinto vontade.
- de quê?
- de que o tempo passe.

pausa.

café.

- eu fico realmente angustiada, dá vontade de sair correndo ou de não sair da cama.
- mas você não está nem correndo, nem na cama.
- porque têm as outras ansiedades.
- quais outras?
- o você, o agora, o talvez não só você...
- é vontade de que o tempo passe. eu sei.
- ou de que não seja importante ele passar, que não exista nada para passar.
- mas você continua passando.
- depende do ponto de vista. eu não me sinto passando. eu sinto que as pessoas é que passam o tempo todo e não param.
- eu me sinto passar e me sinto parada. agora, por exemplo, eu parei.
- para quê?
- para ver o tempo passar.
- vai ficar parada até quando?
- até a meia noite de hoje, depois disso as coisas mudam.
- por que? o que muda? acho que é justamente essa expectativa que faz com que as coisas não mudem, as pessoas ficam com medo de se mover para o lugar errado e não se movem, mas também ficam frustradas por estarem paradas.

pausa.

café.

meia noite.


//

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O afogando da piscina vazia -Rolando Vezzoni

Mergulha de cabeça na piscina, pois não haveria outro jeito.
A água é rasa, mais rasa do que deveria ser quando se pula de cabeça.
O crânio nunca é o bastante nessas horas, e é hora de sair e tudo dói e gira sangrando o crânio...
Sobreviver é algo relativamente comum, mas feridas e cicatrizes são inevitáveis, e vai se lembrando disso conforme deita no gramado do jardim vazio, após sair do buraco, esperando alguém aparecer para lhe prestar socorro.
Mergulha de cabeça no delírio pós-traumático.
Está agora em uma calçada, sabendo que sonha, é sonho pois não há nada que segue a ultima gota vermelha, e cabeça dói como a sua real deve estar doendo no mundo desperto.
É uma rua, avenida ou algo do tipo, das bem grandes, e lotada de pessoas indo e vindo, tudo muito normal como deveria ser, até que começa andar e se percebe preso a uma esfera de ferro por uma corrente, move-se devagar pelo peso daquilo, como um preso de filmes antigos ou desenhos do Pernalonga.
-Ei! Tem uma porra presa na minha perna!- exclama na procura inútil de atenção.
Os outros olham com desconcerto e prosseguem andando num ritmo anormal e desconfortável, simplesmente se esforçando para continuar.
Todos estavam acorrentados.
Vai andando, é o jeito, se contextualizar naquela tão real irrealidade.
-Ei! Você!- lá de trás.
-Eu? -virando-se
-Tu! Não "ele" -diz uma réplica sua.
-Nós?
-Vós! Sua voz! é igual a minha, como a sua cara e o resto! Somos você!
-E eles?
-Não! Mas sim... Tudo ideia sua!
-Como assim?
-Estamos na sua cabeça gotejante!
-Já desisti de ficar confuso a respeito disso...
-Beleza!
Começam a caminhar sentindo o peso irritante, eles não, ele,seu sósia não carregava peso algum, era o único não acorrentado.
-Tem alguma mensagem que você vai me passar, o sentido da vida ou algo do tipo?
-Você anda vendo muito filme, não?
-Sei lá... Aí teria alguma utilidade, mas não existe isso.
-Nada é útil.
-E pra onde vai essa rua aqui?
-Pra nenhum lugar, só vai indo sem sentido.
-Isso me incomoda.
-A mim não, sempre gostei, desde criança.
-Como?
-Ora, não é assim a vida?
Concorda em silêncio, afinal, sim, a vida é assim.
-E você é o único não acorrentado a esse peso por alguma razão?
-Bom... Eu não sou vivo, sou apenas um ideia sua, com a simples função de...
-Passar o tempo?
-É!
-E os outros, eles também são ideias, e carregam o peso.
-Mas são ideias vivas, projeções de um conjunto de pessoas reais.
-Quando idéias vivem?
-Nunca vivem, mas sempre ilustram a vida...-Respira fundo- Ei!
-Que foi?
-Abraço!
As luzes mudam, está tudo voltando, há pessoas envolta e tudo certo, não vai acontecer nada, nenhuma lesão dizem os doutores, acordou socorrido.
Grande piada a sua sr. doutor... Tudo deixa lesão, a vida é vida por lesionar, a unica coisa que não lesa é a morte, nosso vetor paralelo que nos ensina a gozar viver.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Neologismos Bovinos - Bruno Santana


Cheiro nos olhos quando os ouvidos explodem em imagens
bucólicas.
Fugere Urbem psicodelisa o cérebro exato no momento em que
neurotransmissores são desrramamados no vale das vacas eternas. Lá o
barco sensorial está preparado para flutuar na grama contrástica
em árvores elementares balizando o limite vida  realidade.

Este é o momento da terra e
 o sentido está nas vacas: vacas eternas. Vacas eternas pastando, mugindo,
cagando e existindo.
Mães de tudo. Mães do chão. Mães do som.
Mães dos deuses.